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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A equação da vida

Vi O Pequeno Príncipe e amei! A história do livro homônimo, do escritor Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), é linda. E o filme, dirigido por Mark Osborne, conseguiu encaixar bem a mensagem da obra e incluir itens da atualidade, como a vida dos empregados que precisam ser essenciais para as companhias onde trabalham.


A amizade entre a menina e o aviador é pura, natural, divertida. É assim que a garota aprende coisas sobre a vida, o que não aprenderia estudando (muita Matemática) em casa sozinha. O foco nos livros e na futura formação em uma boa faculdade era o que a mãe tinha planejado para a filha se tornar uma ótima adulta.

Claro que minha música favorita do filme, uma parceria do compositor Hans Zimmer e a cantora Camille, é exatamente uma que mostra o quanto o aviador é importante para a menina.

Veja a letra (em Francês) e o vídeo abaixo! :)

Equation

1 + 1 font 2
2 + 1 fait 3
Tu me tire ainsi, les larmes ou la pluie,
Fait chavirer les nuages!
Et si le soleil
Descendra du ciel
Lundi
Dans une heure,
Une vie,
Une semaine,
Une semaine et demi,
Une année,
Un million d'années.
Un peu loin des yeux,
Plutôt près de toi,
Je ne compte que sur mes doigts.
Si par coeur brisé,
Je n'ai que des A,
Est-ce que tu reviens pas,
Pas.


quarta-feira, 18 de março de 2015

Brasileira! - Parte 6

Passei por mais um capítulo da saga. Desta vez, no Japão.

Nos primeiros dias lá, não me sentia no meu "habitat". A impressão que tinha era de estar num grande e aberto Bunkyo ("Bunka kyokan", "centro de cultura" em português).

No começo, era natural que a maioria dos japoneses achasse que eu fosse de lá. Por isso, falavam comigo em japonês. Ficava desesperada, porque falavam muito rápido e não entendia nada. Quando não perguntavam algo, era um alívio, porque só sinalizava com a cabeça que OK ou dizia "hai" ("sim") pra pessoa prosseguir com o diálogo (quase monólogo) ou simplesmente ignorava a "verborragia". A tensão era grande quando surgia uma pergunta e não entendia. Claro que dizia com jeitinho que não entendo muito japonês e as pessoas, algumas não tão gentilmente, tentavam falar mais devagar ou reformular a frase.

Em alguns casos, logo percebiam que eu era estrangeira, porque algumas vezes eu gaguejava, e já se comunicavam em inglês comigo. Mas isso em poucos lugares bem turísticos, porque ainda a grande maioria dos nipônicos não fala inglês, até entendem, mas não conseguem conversar.

Passado um mês ou mais, pensei que seria melhor tentar compreender o que as pessoas falam, sem se preocupar demais com a velocidade que falam. Daí, percebi que era possível entender, mesmo que fosse por palavras-chave e pelo contexto da conversa. E comecei a ficar feliz comigo mesma, porque acabava de dar um passo à frente no aprendizado.

Assim, me senti à vontade para conversar, mesmo que o básico. Pessoas do comércio me perguntavam de onde era e ficavam surpresas em saber que sou brasileira. Alguns diziam que meu país é longe. E muitos disseram que sou jyouzu ("habilidoso") no japonês. Como sei que dois anos de estudo é pouco para se virar, agradecia o elogio e dizia que preciso me esforçar para aprender mais.

Na realidade, no geral, era mais difícil tentar se comunicar em inglês, porque conseguia me expressar bem, mas os japoneses não conseguiam responder no mesmo idioma. Não adiantava muito. Me via apenas com a possibilidade de usar o conhecimento básico de japonês, o que realmente funcionava. Além disso, percebi que os japoneses se sentiam muito mais confortáveis em falar a própria língua (assim como qualquer um), inclusive em conversas com meus amigos não descendentes. Até parecia que quando a interação já era iniciada em inglês, eles se sentiam ofendidos ou algo assim.

O que continua sendo um mistério é ainda pensarem que sou - ou poderia ser - chinesa. Pra mim, pelo menos, tenho cara de brasileira ou de, no máximo, japonesa. Em Okinawa, era até comum encontrar pessoas que falavam chinês. É verdade que lá existem muitos turistas sino descendentes. Talvez por isso deduzissem que eu também poderia ser mais um deles.

Por um lado, faz sentido pensar que sou japonesa. Tenho fisionomia de uma - e me vestia como uma. Mas algo que pode ser um detalhe pra maioria é justamente o que faz toda a diferença. O jeito de agir e os gestos. Se alguém for me comparar com uma nativa, logo verá que sou diferente dela e, portanto, não sou japonesa.

Para mim, o que falta não só aos japoneses, mas para as pessoas em geral, é ter este tato, ter uma etapa para se fazer esta análise e, assim, ter mais informações para se deduzir a nacionalidade de um indivíduo, além de se ter a oportunidade de se aprender sobre as diferenças de culturas que muitas vezes ficam nas entrelinhas.



Veja a saga completa aqui!
Brasileira! - Parte 5

domingo, 29 de junho de 2014

Brasileira! - Parte 5

Eis que chego ao quinto capítulo de minha saga depois de me aventurar mais uma vez fora do Brasil. Neste mês de junho, visitei o Uruguai, a terra da parrilla, alfajor e mate, além do fanatismo pelo futebol.

Primeiro, quero deixar registrado que não se deve "menosprezar" nossos vizinhos e hermanos da América Latina - sim, e isto inclui a Argentina. Além de ser pertinho do Brasil, a moeda é mais barata e estável que o dólar ou o euro. É possível fazer uma viagem curta, agradável e que - com certeza - deixa muitas boas lembranças.

Por ter cara de asiática, novamente estive "camuflada", apenas observando o ambiente - e as dezenas de brasileiros espalhados pela capital uruguaia. A pouca interação que tive com conterrâneos foi até engraçada e inesperada, porque me disseram "bye".

O que observei foi algo que já é incontestável: o brasileiro não sabe falar inglês ou espanhol ou outra língua estrangeira e pode ter dificuldades para se comunicar. Nem sei se o mais bizarro é as pessoas falarem mesmo em português ou arriscarem hablar o famoso portunhol que me faz doer os ouvidos. Confesso que em momentos como estes sinto vergonha alheia e tento evitar que me identifiquem como tupiniquim - ou quase isso.

Por outro lado, é bem legal interagir com nativos e praticar o espanhol (enferrujado) in loco. Como sou curiosa e já tento me planejar o mínimo antecipadamente, chego aos lugares já com muitas dúvidas e, claro, nunca deixo de esclarecê-las e ainda pedir recomendações. Mas o mais legal mesmo é receber elogios! Um senhor - que concluí ser o dono de um restaurante onde almocei - viu uma garota sozinha pedir um super prato de churrasco e decidiu conversar. Foi mais ou menos assim:

- Por que você não pediu meio prato?
- Não sabia que poderia pedir.
- Sim, claro que sim!
- Ah, não sabia...
- De onde você é?
- Sou do Brasil.
- Ah, é?! Você fala muito bem o castelhano!
- Obrigada! É que estudei dois anos de espanhol no Brasil e...

Ele saiu andando e ganhei o dia! :D

Outra conversa interessante foi com uma vendedora de uma loja de roupa. Perguntou de onde era e o que achei da cidade. Comentou que admira quem viaja sozinho e etc. Quando ela descobriu que sou brasileira, disse que conhece Florianópolis e que quer ir para o Rio de Janeiro - tinha ouvido falar de São Paulo.

E sempre tem aquele que quer adivinhar minhas raízes. Em outro restaurante, um jovem senhor preparava os famigerados panchos (hot dogs) e logo "chutou" que minha família é do Japão. Como entendi que ele queria saber de onde sou, respondi que não. E começou o festival de países aisáticos até que nos entendemos e confirmei que minnha origem é nipônica. Ele logo comentou que um vizinho dele é japonês e mora há 20 anos no Uruguai. Por isso, com certo orgulho, justificou como conseguiu me identificar.

É curioso como cada viagem prepara surpresas como estas e, no fim, acabo me divertindo com elas. A crise de identidade fica em segundo plano e toda vez volto com uma nova história - além de tantas outras sobre outros tópicos - para contar!

Veja a saga completa aqui!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Brasileira! - Parte 4

Bairro da Liberdade (crédito para a autora deste blog)
E cá estou uma vez mais com novas indagações, porém, com a mesma "crise" de indentidade.

Trabalhei na Liberdade uns anos atrás, bairro antes conhecido como japonês e hoje considerado oriental pela presença de chineses também. Até então, mal conhecia a cultura e não falava o idioma de meus ancestrais. Sempre me senti brasileira. Por outro lado, aprendi muito lá - passei a admirar os valores e ensinamentos nipônicos.

Outras regiões da cidade são predominantemente habitadas por descendentes como Saúde e Vila Mariana. Por isso, não é nada raro encontrá-los por aí e por outros cantos de São Paulo.

O curioso é o que me vem à cabeça quando vejo grupos deles ou até famílias inteiras num mesmo lugar. "Nossa, mas está cheio de japas aqui, né?" Oras, eles são paulistanos como eu e estão fazendo suas coisas - como eu!

No geral, inexplicavelmente (ou não), não tenho consciência de que tenho feições asiáticas como os demais e quase os vejo como se fossem de outra nacionalidade. Quando relembro estes momentos, percebo que minha pergunta não faz tanto sentido. Volto ao mundo real e aí me atento ao "detalhe" de minhas origens.

Ao ver de diversos pontos de vista, sou igual e diferente dos outros e - ao mesmo tempo - minhas raízes estão em um só país, mas em variadas províncias. Uma mistura só - boa e bem brasileira.

Se para mim já é confuso, agora começo a entender como deve ser para os estrangeiros!


Veja a saga completa aqui!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Homenagem poética a Manuel Bandeira

Começo este post com uma confissão, de que até me envergonho. Perdi muito do contato com as Letras, a literatura, a leitura, a escrita como lazer. Quando me lembro disso, fico um tanto abatida e um tanto decepcionada comigo mesma.

Infelizmente, acabei trocando o virar a página de papel por ficar conectada. Mas a tecnologia pode ajudar a estimular a leitura de outras formas, em celulares e tablets. Vamos ver se me adapto a este novo ler.

Após o desabafo, trago uns versos em homenagem a Manuel Bandeira (1886-1968), que um dia imaginou Pasárgada, antes uma cidade da antiga Pérsia e hoje uma cidade situada no Irã, como um lugar ideal.

E esta é minha homenagem poética bandeiriana!

Se pudesse, eu viajaria
A Pasárgada iria
E, de lá, não mais voltaria...


Quem sabe eu não escreva uma série em homenagem aos grandes poetas brasileiros?

sábado, 7 de setembro de 2013

Vai um chazinho?

Desta vez, faço uma homenagem à bebida considerada quase como remédio, sem a menor graça para alguns, o chá. De uns tempos para cá, não sei bem por que, mas acabei me habituando a tomar chá, depois das refeições, quando faz frio, quando tenho vontade... e também quando meu organismo não está bem.

Talvez o chá para mim seja mais ou menos como o café para a maioria. Vai bem em praticamente qualquer ocasião e não posso passar muito tempo sem consumir. Vai bem com comida japonesa, com doces, como acompanhante de estudos, numa noite gélida, com um bom livro, debaixo do cobertor... Sinto falta. Faz falta. 

Ou, então, este meu "vício" seja apenas uma herança cultural das minhas raízes nipônicas. Os japoneses têm o costume de tomar chá verde natural, fazendo a infusão das folhas na água quente. Este tipo de chá é digestivo e antioxidante. Não é à toa que eles são tão saudáveis!

O curioso é que me acostumei a beber chá em caneca, não em xícara. E isto pode ter sido o motivo de eu começar a gostar de canecas. Já tenho três e faria uma coleção, se tivesse espaço. Na verdade, se pudesse, teria uma caneca para cada tipo de bebida - uma para água, outra para suco, uma terceira para chá...

O interessante é que existe uma variedade muito grande, desde "puros" até os mistos. Nem dá para enjoar! Sou totalmente fã do chá inglês, é o melhor.

A conclusão de tudo que falei é que as pessoas devem ter menos preconceito com essa bebida, pois tem a imagem de "tratamento alternativo", enquanto pode ser uma experiência prazerosa. Vai um chazinho?

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Homenagem a uma xará


Com um pouco de atraso, deixo uma homenagem muito especial e que me remete a minhas lembranças de infância à escritora Tatiana Belinky, que faleceu no dia 15 de junho.

A foto acima ilustra o livro que tenho. É diferente, porque ganhei uma homenagem.

Na época de escola, todos os anos, havia a Feira dos Livros, em que editoras vendiam seus próprios livros aos alunos. Certa vez, fui com minha mãe que me comprou o livro "Quem parte e reparte..." e encontramos ninguém menos que Tatiana Belinky. Minha mãe me incentivou a pedir um autógrafo à autora, porém, eu estava encabulada demais para isso.

Não lembro bem como aconteceu, mas agora tenho registradas palavras valiosas, da minha xará, e que guardei com carinho.

Quero agradecer pela doce lembrança e dizer, então, que descanse em paz. Direto do mundo da literatura para o mundo desconhecido dos sonhos eternos.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Brasileira! - Parte 3

A aventura da vez foi hispânica: na Espanha, vi muitos chineses e japoneses turistando. Como no ano passado fiquei surpresa ao pensarem que eu era chinesa, já presumia que agora não seria diferente. Na América Latina, Santiago e Buenos Aires, passei por algo parecido! E me surpreendi de novo. 

Na Espanha, minha ex-companheira de quarto, que é japonesa, fez uma cara de curiosidade/dúvida em relação ao meu país de origem. Nas aulas de espanhol, os professores chamavam meu nome (Tatiana, que tem origem russa), porém, percebiam que meu sobrenome é japonês. Tive, então, de explicar que sou brasileira, mas que meus bisavós vieram do outro lado do mundo.

Inclusive, uma colega de sala, russa, ficou um tanto intrigada com o fato de eu ser brasileira, ter cara e origem japonesa, e ter o primeiro nome russo. Para eles parece algo quase impossível, contudo, todavia, entretanto, no Brasil é bastante comum.

Já ouvi de algumas pessoas que não sabem diferenciar japoneses, chineses e coreanos. E realmente acho que devem fazer uma salada com os asiáticos.

E os brasileiros (cariocas) que estavam passeando lá nem perceberam que também era do Brasil... Esta é a vantagem...

Enquanto isso, a viagem latina me deu outros pontos de vista. Teve quem pensasse que eu fosse japonesa mesmo (faz sentido) ou americana (até faz sentido, mas me parece que não há tantos descendentes lá!). E aí, vieram na sequência as mesmas respostas de que meus bisavós imigraram para o Brasil, que aqui existe a maior comunidade nipo-brasileira fora do Japão e teve o projeto de imigração japonesa e italiana para cá.

Não sei se eu ou as outras pessoas que ficavam mais surpresos. Chegava a ser engraçado pensar nisso.

Fiquei meio camuflada por trás dos meus olhos amendoados para evitar brasileiros e, consequentemente, falar Português. Estava viajando para praticar Espanhol!

Algo que me incomodava era o fato de falarem em outra língua que não o Espanhol. Na Europa e no Chile, começavam a falar em Inglês. Na Argentina, saía um Espanguês... E sempre estava eu a hablar! Que coisa, deixem que eu pratique!

Sou brasileira, mas sou internacional! ;)



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Brasileira! - Parte II
Brasileira!


sábado, 2 de março de 2013

Hajimemashite

"Hajimemashite", em japonês, significa "muito prazer". Aproveito o início das aulas da língua japonesa para dividir aqui o que já aprendi. Fiquei tão animada que realmente achei que valeria um post. Estou mesmo emocionada! E continuarei seguindo os passos de Guimarães Rosa!
 
Vou me apresentar em japonês!
 
Hajimemashite.
Tatiana desu.
Watashi wa burajirujin desu.
Dozo yoroshiku
onegai shimasu.
 
Em português seria mais ou menos assim:
 
Prazer em conhecê-lo.
Sou a Tatiana.
Sou brasileira.
É um prazer conhecê-lo.
 
Estou me divertindo demais nas aulas, chego a ficar rindo sozinha!
E quem diria que iria gostar tanto de estudar a língua materna dos meus bisavós!


 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Eu e a cultura pop japonesa

No fim do ano passado, me propus a fazer uma imersão na cultura japonesa, inclusive pesquisar sobre minhas origens. A jornada tem sido fantástica e - a cada nova descoberta - me surpreendo cada vez mais. As novidades se encaixam com os conhecimentos que já tinha e tudo faz mais sentido.

Antes disso, cheguei a ler mangás (quadrinhos japoneses), assistir a alguns doramas ("dramas", isto é, novelas japonesas) - que me mostraram um pouco do comportamento japonês -, animações lançadas no cinema (Toonari no Totoro, super fofo; e Ponyo, que estimula a imaginação de adultos também) e animes (leia-se "animês"), como "Full Metal Panic! Fumoffu" (muuuuiiito engraçado) e "City Hunter", meu atual vício.

A ideia toda de "City Hunter" é muito interessante. Apesar da característica marcante do protagonista, Ryo Saeba, um detetive particular de Tokyo que sempre busca ser contratado por mulheres, as trapalhadas rendem séries de risadas. Mas este anime não é feito só de comédia, tem momentos de drama (em que Ryo mostra que tem um bom coração) e ação, quando as habilidades do sweeper sempre se mostram superiores às dos inimigos.

A melhor parte, para mim, é que a cultura tradicional (alimentação e literatura, por exemplo) é inserida no contexto de forma natural, o que me parece incrível e me fascina.

Em um dos episódios, com que me emocionei pela linda história de um casal que teve se separar, foi citado um poema escrito pelo ex-imperador Sutoku (1119-1164), que faz parte da antologia poética Hyakunin Isshu e da coletânea de poesia tradicional Shika Wakashu (229).

瀬をはやみ岩にせかるる滝川の
われても末に 逢わむとぞ思ふ

"Se o hayami
Iwa ni sekaruru
Takigawa no
Waretemo sue ni
Awan to zo omou"

"The rushing rapids are divided by a rock
But further down the waterfall
I know the river will unite again"

Confesso que quando era adolescente, não tinha muito interesse na cultura japonesa. Na faculdade, como trabalhei diretamente com o assunto - aos poucos - passei a ter mais contato e aprender mais. Tenho quebrado barreiras e minha opinião é bastante diferente hoje. Até renderia um livro com o título: "Eu e a cultura pop japonesa - um grande aprendizado".


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Hablas English? Parlez-vous Deutsch?

Sou amante dos idiomas e de estudá-los. Além de poder conhecer um pouco da cultura de cada país, considero que falar outras línguas expande meus horizontes e me torna mais independente para viajar mundo afora.

E, nesta busca quase incessante pelo aprendizado, praticamente me esqueço de que sou descendente de japoneses. Como sempre estudei com semelhantes (escola, curso de Inglês  e Espanhol, e faculdade), não parei para pensar que eu era "diferente".

Comecei a reparar nisso quando voltei a estudar Alemão. É claro que há outros descendentes que frequentam a mesma escola que eu, mas uma colega achou curioso o fato de uma "japonesa" estar lá.

Na realidade, ela não foi a primeira pessoa a pensar isso. Minha dentista, que me conhece desde quando eu tinha quatro anos, sempre me falava algo como: "você é japonesa, fala Alemão e não fala Japonês?". Pois é, me formei em uma escola alemã e não tive muito contato com minhas raízes até a faculdade.

Agora, que terminei os cursos de Inglês e Espanhol, estou no nível intermediário de Alemão, decidi que queria me aproximar mais da cultura dos meus antepassados estudando Japonês. Ainda tenho vontade de estudar Italiano e Francês.

Será que depois de aprender todos esses idiomas já me contento?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

É com A, não com E! - Parte 2

Eis que o tema volta à tona. Desta vez, venho contar algumas experiências por quais passei por conta do meu nome.

Desde a época de escola, já ouvia piadas com o meu nome, rimas como "Tatiana cara de banana!" (ainda que lembravam que é com A!). Uns anos atrás, era quase regra as pessoas que acabava de conhecer me chamarem de "Tati Quebra-Barraco" por causa da própria. Chegou uma certa hora que já previa a piada pronta - e sem graça.

Procurei o significado do meu nome. Um tempo atrás, só se via livros de significados de nomes, que incluíam os mais recorrentes. O meu mesmo ou ficava fora da lista ou apresentava uma breve descrição que equivalia a quase nada. Até onde sei, "Tatiana" tem origem russa, sendo variação de "Tânia", e significa "cigana".

As experiências mais engraçadas por quais passei foram com americanos. Quando estive nos Estados Unidos, e fiz uma compra, o atendente perguntou meu nome e ficou surpreso. Ele disse que entendeu uma determinada palavra, mas que - com certeza - não era meu nome. Aí, ele perguntou, então: "Nachos?". EU é que não acreditei! Ele ouviu um nome de comida mexicana! Depois, repeti meu nome e tive de soletrar, além de explicar a origem do nome. Passei um bom tempo ouvindo "nachos" dos meus amigos se referindo a mim!

Conheci uma americana durante uma viagem e ela, definitivamente, não sabia meu nome. E, quando ela tentou chutar (e imagino que ela tivesse bebido um pouco, já que voltava de uma balada), saiu uma palavra estranha, que não significava nada e nem se parecia com um nome. Deixei pra lá, porque no dia seguinte ela não se lembraria...

Tanto americanos quanto peruanos - que conheci nos Estados Unidos - não conseguem pronunciar o "t" com som de "tch". Por isso, me chamavam de "TaTíána" ou "TaTí", apelido com toque espanhol que também foi muito usado por amigos meus.

Por um lado, por causa de fatores culturais, não posso exigir que estrangeiros pronunciem certo meu nome, porém, - de qualquer forma - talvez em alguns momentos falte um pouco de esforço e memória. Eu falo por mim e digo que acho bastante interessante aprender nomes diferentes e dizê-los da forma certa, mesmo com barreiras de linguagem.


domingo, 5 de agosto de 2012

Ein deutsches Gedicht

Faço aqui uma homenagem às aulas de Alemão, que retomei neste ano, com alguns versos. O pequeno poema brinca com a redundância que existe na língua alemã. Achei curioso, já que em Português evitamos isso ao máximo.

"Viel Spaß"! ("Aprecie!")

Was machst du gern?
Ein Essen essen
Ein Spiel spielen
Eine Getränk trinken
Einen Traum träumen
Mit dem Telefon telefonieren

O que você gosta de fazer?
Comer uma comida
Jogar um jogo
Beber uma bebida
Sonhar um sonho
Telefonar com o telefone

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Tanabata Matsuri, o Festival das Estrelas

Minhas raízes têm falado mais alto e tenho estado mais em contato com a cultura japonesa. Uma das tradicionais festas que traz uma história bonita, mas um pouco trsite, é o Festival das Estrelas, o Tanabata Matsuri.

Origem

O Festival das Estrelas tem origem em uma antiga lenda japonesa, criada há quatro mil anos e inspirada nas estrelas Vega e Altair. A Princesa Orihime era filha de um poderoso deus do reino celestial e excelente tecelã - confeccionava a mais perfeita seda de que se tinha notícia.

Preocupado com sua excessiva dedicação, o rei ordenou que ela se distraísse com passeios diários pelo reino. Em uma dessas ocasiões, Orihime conheceu o pastor Kengyu e os dois se apaixonaram.

O pai da jovem consentiu o casamento entre eles. Porém, esquecendo-se completamente de suas obrigações, a princesa tecelã e o pastor dedicaram todo o tempo a esta paixão e, por este motivo, foram castigados, sendo transformados em estrelas e separados pela Via Láctea.

Comovido com a tristeza do casal, o Senhor Celestial permite um único encontro entre os dois, no sétimo dia do sétimo mês do ano. Orihime e Kengyu atendem aos pedidos feitos em papéis coloridos (irogami) e pendurados em bambus (sassadake) em agradecimento à dádiva recebida.

Segundo a mitologia japonesa, a princesa é representada pela estrela Vega, e o pastor, pela estrela Altair, do lado oposto da galáxia, fazendo com que realmente se encontrem uma vez por ano.

A festa passou a ser celebrada há mais de 1.150 anos, na Corte Imperial, e a data tornou-se feriado nacional em 1603.

O festival no Japão e no Brasil

No Japão, o Tanabata Matsuri é realizado em diversas cidades no mês de agosto,  para aproveitar as férias de verão das escolas. O festival da província de Miyagui é o mais tradicional.

Já no Brasil, o Festival das Estrelas é realizado desde 1979 pela ACAL – Associação Cultural e Assistencial da Liberdade e pela Associação da Província de Miyagui, na Praça da Liberdade, em São Paulo, sempre em julho.

As ruas Galvão Bueno e dos Estudantes, e a praça são decoradas com grandes ramos de bambu que recebem a ornamentação de enfeites coloridos de papel para representar as estrelas. Nesses bambus, são pendurados os tanzaku, pequenos pedaços também coloridos de papel, em que as pessoas escrevem seus pedidos. As cores do tanzaku são vermelho (força e coragem), verde (esperança), amarelo (prosperidade), branco (paz) e preto (esforço e concentração).

Shows de cantores, taikô, música, dança folclórica, entre outros, fazem parte das atrações da festa, que é a principal atividade anual do bairro.

Neste ano, foi realizada a 34ª edição do São Paulo Sendai Tanabata Matsuri.

Canção tradicional

Uma música tradicional do Tanabata Matsuri trata do costume de escrever os desejos no tanzaku.

Sasa no ha sara-sara
Nokiba ni yureru
Ohoshi-sama kira-kira
Kingin sunago
Goshiki no tanzaku
Watashi ga kaita
Ohoshi-sama kira-kira
Sora kara miteiru

Tradução

A folha do bambu rumureja
Agita-se na beirada
As estrelas cintilam
No ouro e prata dos grãos de areia
Os cartões em cinco cores
Já os escrevi
As estrelas cintilam
E nos observam lá do céu


Fonte:
Site da Associação Miyagui Kenjinkai do Brasil
www.culturajaponesa.com.br
www.nipocultura.com.br
www.nikkeypedia.org.br


domingo, 22 de abril de 2012

Brasileira! - Parte 2

Passei por uma experiência, digamos, diferente na primeira viagem que fiz para Europa, no início do mês. Meus traços orientais me "camuflaram" por lá, pois muitos não desconfiavam que fosse brasileira - e de olhos puxados!

Como não quis ir completamente sozinha, decidi fazer um tour em grupo e conheci pessoas de diversos países, inclusive malaias (meninas da Malásia, isto é, asiáticas).

Conversando com o único sul coreano do grupo e um australiano, descobri que eles achavam que eu era chinesa. Quando disse que sou brasileira, eles ficaram surpresos e curiosos para saber como era o Rio de Janeiro (que não conheço) e São Paulo.

Até uma das malaias confessou que achava que eu era chinesa. Depois, falou que - pensando melhor - eu parecia mais japonesa... (risos) Aí, outra observou que elas estão acostumadas a ver chineses e, por isso, conseguem diferenciar.

O que me surpreendeu foi encontrar duas chinesas numa cidade minúscula da República Tcheca, Kutná Hora, e ter mais uma história para contar. Elas mexiam numa câmera semi-profissional e me viram passando com a minha câmera pendurada no pescoço. Sinceramente, acho que elas devem ter pensado que minha cara de oriental dizia que eu sabia usar este tipo de câmera e provavelmente tirar fotos boas. Uma delas perguntou, em Inglês, se eu poderia fotografá-las e respondi que tudo bem. A outra falou umas frases ininteligíveis com a primeira que me perguntou se eu falava chinês (!). Pensei: "não acredito, até as chinesas me identificaram como uma compatriota!" Falei que não... Nos comunicamos em Inglês mesmo e consegui fotografar a cena que elas imaginaram.


Percebi que Praga, capital da República Tcheca, é um destino comum entre chineses. Vi diversos grupos andando pela cidade. E fui confundida como sendo chinesa mais uma vez. Uma noite, decidi experimentar um chocolate quente famoso e caminhei de volta ao hotel. No caminho, entrei em uma das poucas lojas de souvenir que estavam abertas naquele horário. Loja grande. Logo que cheguei, um senhor careca, porém aparentemente simpático, fez uma reverência e falou "oi, tudo bem?" em nada menos que em japonês, chinês e coreano. Na sequência, disse algo em alemão e retruquei - na mesma língua - que falo um pouco só. E, enfim, soltou uma frase em espanhol e respondi que não sou da Espanha, também na mesma língua. Ele desistiu de conversar comigo.

Surgiu outro homem que já perguntou de onde eu era, em inglês. Ao responder "Brasil", ele ficou surpreso e até falou uma palavra ou outra em português. E, seguindo a "regra", também pensou que eu fosse chinesa. Como já estava cada vez mais inconformada, tive de matar minha curiosidade e descobrir por que sempre me associam com a China. O diálogo foi algo assim:

Eu - Você é vendedor aqui, não é?
Vendedor - Sim.
Eu - Vocês devem estar acostumados a receber muitos turistas, inclusive chineses. A cidade sempre recebe muitos turistas.
Vendedor - É.
Eu - Então acho que vocês, por receberem sempre muitos turistas, poderiam diferenciar os chineses das pessoas de outros lugares pela roupa e o comportamento.
Vendedor - (acho que ele disse que não sabe diferenciar e reafirmou que ele imaginou que eu fosse chinesa)

Pois é, falta prestar um pouco de atenção. Só.

Durante a viagem, teve ainda um episódio "decepcionante". Aconteceu no elevador da torre do Relógio Astronômico, em Praga também. Desci, mas queria subir de novo. Estavam comigo um casal hispânico, uma pessoa na qual não reparei e um casal de brasileiros. A pessoa saiu e tanto eu quanto o homem hispânico demos passagem. Minha ideia era deixar todos saírem e continuar no elevador para subir novamente. Aí, a brasileira disse: "Go ahead! Go ahead!", mas não saí. Não sei se ela pensou que não tinha entendido, talvez por ter achado que eu era chinesa, e segurou meu braço, me puxando para fora! Fiquei revoltada, porém, não tive reação, não falei nada, só pensei em não gastar energia com uma discussão boba. Muita falta de respeito! Quando me lembro disso, fico com muita raiva!

Cheguei à conclusão de que essa viagem foi uma aventura. Fiquei surpresa em descobrir que a maioria das pessoas - de variadas nacionalidades - imaginavam que eu fosse chinesa. Ainda não sei se é por ter traços asiáticos, pelo comportamento, pela timidez, porque os chineses estão em todos os lugares... Assim, fica a dúvida: por que acham que sou chinesa?


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domingo, 15 de janeiro de 2012

O Ano Novo no Japão

Nestes últimos dias, lembrei que havia escrito um texto sobre a tradição japonesa no Ano Novo. 2012 já chegou, mas vale a leitura!


A chegada de um novo ano significa o início de um período de renovação. No Brasil, tem-se uma forte influência das raízes africanas. As roupas brancas são quase unânimes para atrair paz, principalmente para aqueles que vão ao litoral assistir à queima de fogos, pular sete ondas ou fazer oferendas.

Já a tradição japonesa da festa de Ano Novo é ainda mais religiosa. Preceitos budistas são seguidos fielmente.

Conheça alguns costumes do oshougatsu (Ano Novo) no Japão.

A passagem do ano é a data mais importante no calendário japonês e a festa pode se estender por três dias ou até uma semana. De cunho religioso, a data é reservada para se fazer a purificação, orações e dar boas-vindas ao ano que se inicia. Além disso, as famílias assistem ao Kouhaku Utagassen, show de música com cantores famosos que se tornou tradicional no Japão.

Os preparativos começam com alguns dias de antecedência. Acredita-se que para entrar no ano novo é preciso ter tudo limpo. Por isso, as donas de casa iniciam, em novembro, faxinas em suas residências, chamadas oosouji, uma espécie de purificação. É uma boa oportunidade para trocar tatamis e o papel utilizado nas divisórias ou portas corrediças (shouji). Nas empresas, os funcionários fazem um mutirão no ambiente de trabalho.

A entrada das casas é adornada com o kadomatsu, um arranjo de folhas de matsu, similares a folhas de pinheiro (símbolo de longevidade), haste de bambu (símbolo de persistência) e galhos de ameixeira (símbolo de prosperidade). Uma das peças decorativas mais tradicionais, tem a função de trazer sorte aos seus moradores. O shimenawa, enfeite de papel branco também comum no Ano Novo, serve para espantar os maus espíritos. Acredita-se que uma casa com shimenawa é um lugar purificado para receber divindades.

Data religiosa

A cerimônia do Joya no kane, celebrada na noite do dia 31 de dezembro, consiste em tocar o sino 108 vezes, sendo a última badalada à meia-noite. Segundo a crença budista, as badaladas representam os pecados ou desejos mundanos do homem. Tocar o sino serve, então, para afastar esses desejos, para que o homem esteja purificado no novo ano.

Logo cedo, no dia 1º de janeiro, os japoneses fazem o a primeira visita a um templo budista ou um santuário xintoísta, chamada de hatsumode. As jovens se divertem ao vestir quimonos coloridos e ao passear com familiares, amigos ou namorados.

Outro costume é de se colocar o kagamimochi - dois mochi (bolos de arroz), um sobre o outro, decorados com papel japonês, folhas de matsu e daidai (laranja nipônica) - sobre um altar, como forma de agradecimento aos deuses budistas e xintoístas.

Comidas

Osechi-ryouri é a refeição dos três primeiros dias do ano, que inclui diversos pratos dispostos em caixa de madeira laqueada (juubako). Não se pode trabalhar nos dias do oshougatsu e as donas de casa já deixam, então, tudo preparado, com alimentos que passem por esse período sem estragar. Assim, surgiu a tradição de comer, na última noite do ano, o toshikoshisoba, o macarrão de passagem de ano, que simboliza longevidade, pois remete à barba e aos cabelos dos deuses de longa vida.

Presentes

Otoshidama é o presente dado em dinheiro, dentro de um envelope, pelos pais ou parentes às crianças, que podem comprar o que desejarem.

Os cartões de Ano Novo japoneses, os neganjus, têm tanta importância quanto na cultura ocidental. Algumas vezes, os desenhos são feitos pelos próprios remetentes e um dos temas preferidos é o zodíaco chinês.

Brincadeiras

As crianças divertem-se com brinquedos que no fim do ano ganham significado especial. Os meninos jogam pião (koma) e empinam pipas (takoage). Já as meninas brincam com peteca (hanetsuki), com suas raquetes de madeira decoradas, conhecidas como hagoitas. Quem deixar cair a peteca recebe uma pincelada de nanquim no rosto como punição.

Kakizome

Geralmente no dia 2 de janeiro, as crianças japonesas reúnem-se para a primeira caligrafia do ano. Em um papel branco fino, escrevem com tinta nanquim um poema ou uma resolução para o novo ano, por exemplo. Lá, todos os anos, são organizados concursos e exposições dos trabalhos infantis.

Ao contrário dos ocidentais que saúdam o futuro ao dizer “Feliz Ano Novo”, os japoneses agradecem pelos pedidos atendidos no ano que está para terminar, dizendo: “Akemashite omedetou gozaimasu”.

Festas

Bonenkai é a festa de final de ano que reúne famílias, amigos, funcionários de uma empresa, entre outros, para confraternizar e esquecer tudo de ruim que aconteceu no ano passado.

shinenkai é a festa para comemorar a entrada de um novo ano – que também poderá reunir todo esse pessoal para desejar sorte, abundância e felicidade para o novo ano.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade

Crédito: Reprodução
Em homenagem à data de hoje, 31 de outubro, publico aqui no meu blog um post com poemas de Carlos Drummond de Andrade (31/10/1902-17/8/1987), que nasceu há exatamente 109 anos.

Confesso que conheço pouco de sua produção literária, mas aqui vão alguns versos dos meus favoritos, do primeiro livro publicado pelo autor, Alguma Poesia, em 1930.

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


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domingo, 8 de maio de 2011

Pilotando fogão

Aproveito o Dia das Mães para falar sobre um assunto que tem fortes laços com o papel feminino. Cozinhar, tarefa conhecida também como "pilotar fogão".

A primeira pergunta que me faço é por que esta é uma "missão" feminina. A explicação (histórica) que me vem à cabeça me remete à época em que as mulheres não tinham escolha e eram donas de casa. Cozinhavam, lavavam, passavam, cuidavam dos filhos e do marido. Pensamento machista ainda presente hoje.

É claro que existem as vantagens de saber e gostar de cozinhar. Você consegue sobreviver sozinha; se for mãe ou avó, agrada a família e se sente bem com isso; de certa forma, faz uma terapia; estimula a criatividade e aprende a se organizar.

Eu - na realidade - já confessei que não sou fã de preparar comida e ainda com sorriso no rosto. Muitas pessoas estranham o fato e algumas até me criticaram, como se fosse algo totalmente absurdo. Prefiro lavar louça a cozinhar.

Chegou a hora de me defender.

Os papéis sociais da mulher - e do homem - estão mudando. Muitas mulheres dão prioridade aos estudos e seguem sólidas em uma carreira. Assim, elas dispõem de menos tempo para os afazeres domésticos e precisam de praticidade. Quando não têm tempo, buscam se adaptar - pedir para entregar comida em casa, comprar congelados ou comida semi-pronta, etc. Por outro lado, quando podem ir para a cozinha, preferem dedicar o tempo livre a outras atividades. Afinal, cozinhar não é só criar o prato, é um processo que envolve também a compra e a escolha dos ingredientes.

Além disso, alguns homens estão se tornando mais independentes e já sabem cozinhar um pouco. Existem aqueles que adoram este ritual e até convidam amigos para experimentar o resultado de suas aventuras gastronômicas. Este tipo seria o "marido ideal" para muitas mulheres.

Já ouvi representantes do sexo feminino revelarem que cozinha não é seu hobby ou forte. Eu sabia que não era a única a pensar assim, porém, me sinto muito mais confortável em ter certeza.

E, enfim, meu último argumento. Talvez o melhor de todos. Durante a semana, no horário do almoço, vi várias senhorinhas comendo em restaurantes self-service (vulgo "quilo"). Isto significa que elas não estão em casa preparando sua própria comida. Até elas estão se rendendo a essa praticidade! Não tem mercado ou feira, tempo na cozinha e louça para lavar. Uma maravilha.

É verdade que não é maioria. Muitas ainda vão fazer compras e aproveitam para socializar. Outras gostam mesmo de fogão.

Meu sentimento de ser considerada "diferente" diminuiu, as mulheres não são obrigadas a gostar de cozinhar. Mas ainda sei que algo me incomoda, me vejo diante de uma contradição. Neste momento, continuo a evitar a cozinha e o fogão, ideia que - em um futuro próximo - poderá mudar.