terça-feira, 26 de julho de 2011

Desapego

Ao longo dos anos, ganhamos presentes, compramos coisas novas, guardamos lembranças e papéis. Se não nos desfazemos de alguns itens, acumulamos mais e mais. Até que chega a hora de mudar de casa.

A primeira ideia que vem à cabeça é "quero levar tudo". Mas não é bem assim, a distribuição dos espaços é diferente e, com certeza, uma boa parte dessas coisas você não usa há tempos e não fará falta depois. É psicológico: você guarda e fica feliz em ter guardado, porém, depois de um tempo, você até esquece que guardou aquilo e você nem percebe a ausência do objeto.

Aí, após começar a separar seus pertences, percebe que não será possível guardar tudo que se quer. Aliás, é impossível querer guardar tudo.

No início sempre é mais difícil. Você começa descartando aquilo que considera mais "absurdo" manter, como papéis que já deveriam ter sido enviados para a reciclagem. Aos poucos, já se condiciona a pensar que este e aquele não terão grande utilidade no futuro e devem ser reencaminhados. Muitas coisas podem ser doadas, como livros, roupas, bolsas, brinquedos.

Temos de praticar o desapego. Assim, devemos enfrentar o desafio de encontrar alternativas para armazenar todas as lembranças que são revividas - sempre com o mesmo sentimento de surpresa e alegria - ao nos depararmos com tudo que guardamos com carinho.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Um deles

Posso ter me tornado um deles. Apenas mais um que pertence ao grupo de pessoas apressadas, estressadas, que não respeitam os outros e empurram quem estiver à frente.

Digo isto, porque comecei a pegar metrô todos os dias de manhã, numa linha cheia e num horário cheio. Esta rotina começou a fazer mal para mim, iniciava o dia já irritada. Afinal, é absurdo.

Na maioria das vezes, quando você chega à plataforma, há um pequeno bolo de pessoas - com uma muito próxima da outra. Às vezes, este bolo termina depois da linha amarela, quase no vão dos trilhos. Logo você fica no meio, não mais no final. À sua volta, cada vez mais pessoas surgem. Mais e mais.

Ao trem se aproximar, o grupo transforma-se em bloco, com as partes grudadas e que se movimenta por inteiro. Você, já perdido por ali, é prensado com certa violência, a ponto de não conseguir respirar. Depois de o bloco contrair, se mover e um ou outro atropelar muitos, ele descontrai. E todos voltam à espera do próximo trem.

O processo repete-se cerca de duas vezes até você entrar no tal bloco que consegue entrar em um vagão. Algumas vezes o bloco te leva e outras você é levado por ele. Nem é necessário mexer as próprias pernas.

A saída pode ser tranquila ou tão selvagem quanto a entrada. Se você está no caminho, pode ser carregada para fora. E, se está na porta, pode levar um empurrão sem ouvir um pedido de desculpas em seguida. Se vai descer na estação, pode ser atropelado - mais uma vez.

Me adaptei à situação e percebi que comecei agir de uma forma parecida. Comportamento que desaprovo totalmente. Assim, passei a sentir um incômodo interno e perguntei a mim mesma: "estou me tornando um deles?". A resposta foi afirmativa. Fiquei agoniada. Nessas horas, vem a crise existencial. Não faz sentido ser como os outros se não gosto e não quero. A solução foi fácil, na realidade. Porém o mais importante é que percebi a tempo de não ser - de fato - um deles.